Você é amado ou só é necessário?
Se o outro só aparece quando você tem algo a oferecer, você é apenas necessário
Existe um teste que eu uso há um tempo, sem nunca ter dado nome a ele. Hoje eu dou: E se eu parasse de entregar?
Não de sumir, não de desaparecer. De parar de entregar aquilo que você acredita que faz o outro gostar de você. Parar de resolver, de ajudar, de puxar assunto, de ser solução. Se o vínculo racha quando você para, você não era amado ali. Era necessário. E necessário tem prazo de validade: dura exatamente o tempo da sua utilidade.
Ser amado ou necessário, fica mais claro não quando você demonstra utilidade nenhuma, mas no seu oposto exato: quando, além de não ajudar, você está atrapalhando. Pesando no barco, atrasando a remada, custando esforço alheio. E mesmo assim ninguém larga o remo, ninguém te joga pra fora, ninguém te cobra depois o tempo em que você não remou. Isso não é utilidade. É amor sem disfarce. É o mesmo amor que a minha fé descreve como tendo se provado não quando eu estava bem, e sim quando eu ainda nem merecia — Romanos fala disso com uma clareza que a filosofia não alcança sozinha: o amor que vale é o que aparece antes de qualquer mérito, não depois dele.
Mas a vida raramente te testa desse jeito, com o barco afundando. Ela testa todo dia, de um jeito bem mais discreto. Eu chamo de petisco.
Você sabe do que estou falando. Aquele movimento de oferecer o que você tem de melhor pra atrair um olhar, uma atenção, um desejo. E funciona. A pessoa vem. Fica por perto. Só que, com o tempo, o petisco vai acabando, porque nenhum ser humano vive em estado permanente de excedente. E quando ele acaba, a pessoa vai embora junto.
Aí vem a queixa: infidelidade, desinteresse, falta de compromisso. Mas nem sempre é isso. Muitas vezes é só o fim de um contrato que ninguém assinou por escrito, mas que só uma das partes redigiu: você. A pessoa nunca ficou por você. Ficou pelo petisco. E quando ele some, ela só está lendo o fim do próprio acordo.
Não vejo problema nenhum nisso, em nenhuma das pontas. Não há mal em oferecer o seu melhor genuinamente na busca de uma conquista, e também não há mal em fazer um bom petisco pra chamar atenção. O problema nunca está no outro que vai. Está em quem se machuca quando ele vai, porque aí o problema não é a partida, é a expectativa que você construiu sozinho de que aquilo seria permanente. E a vida não é uma constante. Numa relação você oferece o petisco, na relação ao lado, é você quem come. Ninguém ocupa uma única posição fixa nessa engrenagem, eu tampouco. Já fiz as duas coisas. Vou seguir fazendo.
Tem um teste simples para enxergar isso na sua própria vida, e ele não exige nenhuma introspecção complicada. Abra o seu WhatsApp. Sua agenda de ligações. Repare quem sempre puxa o convite, quem sempre inicia a conversa, quem chama. Se for sempre você, sempre, você já sabe a resposta. Não tem maldade nenhuma nisso, não é motivo pra romper nada, dá pra conviver numa boa. Mas essas são pessoas que, com muita honestidade, veem em você a utilidade, não o amor nem a amizade. É a mesma dependência de que já falei em "Se você depende, você DEPENDE" (Clique aqui e leia)— só que ali a dependência era do salário, do humor do chefe, da aprovação do ambiente; aqui é a certeza, silenciosa e nunca combinada, de que o outro vai ficar. E também tem gente que só te procura pra te vender algo, uma ideia, um produto, uma causa, essas nem entram nessa conversa, são outra categoria.
Eu já passei por isso muitas vezes. Vou passar de novo. A diferença é que hoje eu crio cada vez menos expectativa em cima do que ofereço. Aproveito o que o presente me dá, sem cobrar do futuro uma garantia que ninguém me deve. E se um dia aquela pessoa voltar, sem nenhum interesse por trás, só porque sim, aí ela sobe pra prateleira de poucos. É lá que moram os que aparecem sem eu chamar, os que perguntam como eu estou sem precisar de nada em troca.
Faz um tempo eu vivi essa mesma lógica em escala maior, dentro de um grupo de empresários. Ali todo mundo repetia que o foco era o outro, que a palavra que mais valia era relacionamento. Enquanto eu estive dentro, acreditei. Só que quando saí, poucos ficaram por perto, porque muitas pessoas ali estavam ocupadas demais procurando outro igual a mim pra colocar no meu lugar. De fora, a coisa fica nítida de um jeito que de dentro é impossível ver: aquele grupo fingia que vendia vínculo. Mas na verdade vendia acesso, rede, oportunidade, a mesma lógica que descrevi em "Retirando o seu crachá, quem sobra?" (clique aqui para ler), de um ambiente que compra a sua entrega, não o seu Eu. Aquele grupo, usava a palavra mais bonita da língua pra nomear a moeda mais fria que existe. E quem lucrava era sempre o mesmo: o dono da rede, o fabricante do petisco coletivo, que promete relacionamento profundo e entrega uma carteirinha que se rasga assim que você sai pela porta.
Não é maldade, na maioria das vezes. É só o mecanismo funcionando exatamente como foi desenhado, inclusive quando o desenho é institucional, feito por muita gente ao mesmo tempo, disfarçado de comunidade.
Então fica o convite, sem cobrança nenhuma, pra você responder em voz alta: faz o teste do barco e faz o teste do WhatsApp. Descubra quem rema por você quando você não tem nada a oferecer, e descubra quem só liga quando quer algo. As duas listas vão te dizer, sem margem de erro, se você anda cercado de gente que te ama ou de gente que precisa de você. E, principalmente, vão te lembrar de uma coisa mais difícil de engolir: talvez você também esteja, em algum lugar, na lista errada da vida de alguém.