A dor de quem normaliza o sofrimento
Quando a pessoa passa a acreditar que é normal se anular por alguém ou por algum projeto
Quando agradecemos as migalhas de um banquete, é porque já nos tiraram a condição de dignidade.
Estava lendo o livro Em Busca de Sentido, do Viktor Frankl, no trecho em que ele descreve a psicologia do prisioneiro depois da libertação. E um detalhe me parou mais que o resto: não é que os prisioneiros ficassem eufóricos e a euforia demorasse a vir. É que muitos simplesmente não sentiam nada. A liberdade chegava e encontrava um psiquismo que já tinha se blindado tanto para sobreviver que perdeu, por um tempo, a capacidade de registrar que agora era permitido sentir alívio.
Frankl chama isso de apatia. E faz questão de dizer uma coisa que eu acho fundamental: essa apatia não era fraqueza. Era a casca que se formava, quase como um mecanismo automático, para que a pessoa aguentasse o que estava sendo exigido dela ali dentro. Sem essa casca, ninguém atravessava inteiro. A apatia não destruiu o prisioneiro. Ela foi, por um tempo, o que sobrou dele para se manter de pé.
Enquanto lia isso, minha cabeça foi para outros cativeiros. O funcionário que aguenta anos de um chefe que o diminui todo dia. A mulher que já não sabe dizer, com clareza, se o que vive em casa é amor ou é controle. O idoso que aceitou como normal viver sob o humor de quem deveria cuidar dele. Nenhum desses cativeiros tem grades. Mas o mecanismo por dentro, cada vez que voltei a pensar nisso, parecia estranhamente parecido com o que Frankl descreveu.
Eu quero ser preciso aqui, porque a precisão importa para quem está de fora tanto quanto para quem está dentro. Não estou dizendo que a dor de um emprego tóxico se equipara à dor de um cativeiro ou de uma relação violenta. As intensidades não se comparam e misturá-las seria uma injustiça com quem viveu o mais grave. O que se repete não é o tamanho da dor. É o mecanismo por trás dela.
A régua não quebrou, mas ja acredito que ela não é mais para mim.
Por muito tempo eu pensei que o problema fosse a pessoa perder a capacidade de enxergar o que é digno. Que ela normalizasse tanto a própria situação a ponto de esquecer como é uma vida saudável.
Não é isso. E essa correção muda tudo.
A mulher que vive um casamento controlador continua enxergando com absoluta nitidez o casamento bom da irmã. O funcionário maltratado pelo chefe sabe exatamente como é o ambiente saudável do colega de outra empresa. A régua deles para medir o que é digno não quebrou. Continua reta, continua calibrada, continua funcionando perfeitamente quando aplicada à vida do outro.
O que se desliga é a permissão para aplicar essa mesma régua a si mesmo.
Isso é mais duro do que simples cegueira, porque cegueira teria uma espécie de alívio embutido, o de não saber. Aqui não há esse alívio. A pessoa sabe. Ela mede o mundo com precisão e desiste de medir a própria vida com o mesmo instrumento. Existe um nome para esse mecanismo. Isso é dissonância cognitiva, especificamente na variante que ficou conhecida como justificativa do esforço: quanto mais alto o preço que alguém já pagou para sustentar uma situação, anos de casamento, uma carreira construída debaixo daquele chefe, mais custoso fica admitir, para si mesma, que aquele preço foi pago por algo que não valia a pena. A mente, para se manter coerente, prefere desligar o julgamento exatamente no ponto em que ele doeria mais.
Não é ignorância. É blindagem seletiva contra a própria conclusão.
O trapo que aceitamos como cobertor
E aqui mora a parte mais cruel disso tudo. Quando a pessoa finalmente consegue nomear alguma coisa boa dentro da própria situação, mesmo que seja pequena, mesmo que seja rara, ela se agarra àquilo com uma força desproporcional. Um dia de paz depois de meses de tensão. Um elogio raro do chefe que humilha todo dia. Um gesto de carinho do marido que controla todo o resto.
Aquilo não é cobertor. É trapo. Um pano furado que não protege de nada. Mas quando é a única coisa disponível para se cobrir, a pessoa o veste como se bastasse. E quanto mais ela precisa que ele baste, mais convincente fica a farsa que ela mesma conta para si.
Um segundo cativeiro, o julgamento de quem está de fora
Tem ainda uma camada que raramente se discute, e que talvez seja a mais injusta de todas. O meio ao redor, o amigo, o familiar, o colega de trabalho, geralmente enxerga essa normalização como fraqueza de caráter. "Por que ela não sai?" "Por que ele aguenta isso?" Essa pergunta, feita sem entender o mecanismo, não ajuda. Ela julga o efeito e ignora a causa. E o efeito colateral desse julgamento é que a pessoa, que já está sozinha dentro da própria miopia seletiva, passa a carregar também a vergonha de ser vista como fraca por algo que na verdade é sobrevivência.
Isso não alivia a situação. Piora. A pessoa se isola ainda mais, porque agora, além de não conseguir aplicar a própria régua a si mesma, sente que também vai ser julgada se contar o que se passa.
Um teste na minha própria vida
Eu vivi uma versão disso aos vinte e seis anos, quando comecei a trabalhar num banco sob um gestor que sabia exatamente como diminuir as pessoas mantendo a aparência de gestão enérgica. Fui contratado junto com outros dois profissionais de destaque, e em pouco tempo os três viramos improdutivos, infelizes e, o pior, convencidos de que éramos incompetentes.
Em determinado momento, eu tentei ser exatamente o que ele queria que eu fosse. Não por fraqueza. Por sobrevivência, ou pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo. E aqui está o detalhe que só entendo com clareza agora: eu não perdi a capacidade de reconhecer trabalho saudável. Eu via isso em outros bancos, em outros gestores, com total nitidez. O que eu tinha desligado era a permissão de aplicar essa mesma régua à minha própria situação. Eu já tinha investido demais ali para admitir, para mim mesmo, que talvez aquilo não valesse o preço que eu estava pagando.
Quando cheguei no limite, saí rápido. Mas as cicatrizes daquele período ficaram por muito mais tempo do que eu gostaria de admitir. A régua voltou a funcionar assim que saí. O que não voltou junto foi a confiança de que ela estava certa.
O que fica
Se você reconhece esse mecanismo em algum canto da sua vida, a primeira coisa que eu diria não é "reaja" ou "saia agora". É mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: pare de tratar a normalização como uma falha sua. Ela não é fraqueza. Ela foi, por um tempo, o que te manteve de pé.
Assim, cedo ou tarde, a régua que nunca deixou de funcionar do lado de fora vai pedir para ser usada também do lado de dentro.