O Cardápio que você recebeu não é o resumo do que a vida oferece
Quando você se depara com a possibilidade de perguntar o que o mundo tem a mais para você
Ao ter o prato de sempre que eram batatas fritas, a pessoa descobre que pode querer outra coisa
O cardápio que você recebeu não é a vida
No vídeo, uma mulher se senta à mesa, olha o cardápio e vê apenas batatas fritas. Como não encontra outra opção, pede o de sempre. [1]
Então percebe que outra mulher está comendo massa.
A cena é engraçada, mas a pergunta que ela provoca não é pequena: quantas vezes aceitamos aquilo que a vida nos apresenta porque nunca aprendemos a perguntar se existia algo além? 1
Talvez você esteja comendo batatas não porque as escolheu, mas porque foi apenas isso que aprendeu a pedir.
O cardápio que recebemos
Todos nós recebemos um “cardápio” antes de termos consciência suficiente para examiná-lo.
Ele foi escrito pela família, pelo ambiente, pela cultura e pelas experiências dos primeiros anos. Nele estavam as coisas que poderíamos desejar, os comportamentos esperados e os lugares que pareciam possíveis para alguém como nós.
Em algumas casas, perguntar é natural. Em outras, parece desafio. Discordar soa como ingratidão. Dizer “eu quero outra coisa” pode provocar conflito ou afastamento.
A criança aprende depressa. Percebe que é mais seguro descobrir o que esperam dela do que mostrar o que deseja. Com o tempo, isso deixa de parecer obediência e passa a parecer personalidade.
“Eu não faço questão.”
“Para mim, qualquer coisa está boa.”
“Eu sempre fui assim.”
Pode ser verdade. Mas também pode ser a fala de alguém que aprendeu a não incomodar. Essa pessoa não ficou sem desejos. Apenas perdeu a intimidade com o ato de desejar.
No vídeo, a mulher só deseja massa depois de vê-la no prato de outra pessoa. Isso não significa que alguém tenha colocado um desejo falso dentro dela.
Muitos desejos nascem assim. Conhecemos algo que não conhecíamos e percebemos que aquilo também poderia fazer sentido para nós. A outra mulher não entrega a massa. Ela apenas mostra que o cardápio não contém tudo o que existe. Algumas pessoas cumprem esse papel em nossa vida. Elas não nos dizem o que querer. Apenas vivem de um modo que nos faz perceber que havia outras possibilidades.
Nesse momento, pode nascer uma pergunta: “Será que precisa ser assim?”
Essa pergunta é simples para quem cresceu com liberdade para fazê-la. Para quem aprendeu que questionar colocava o vínculo em risco, pode ser uma descoberta difícil.
Talvez o primeiro passo não seja saber exatamente o que você quer. Talvez seja recuperar a capacidade de perguntar à vida: “O que mais existe?”
Depois de ver a massa, a personagem faz um pedido claro. Mesmo assim, o garçom traz batatas novamente.
Agora ela já sabe o que quer. A dificuldade é dizer que aquilo que recebeu não corresponde ao que pediu.
Existe uma diferença entre desejar em silêncio e sustentar o desejo diante de outra pessoa. Quando a vontade se torna visível, ela pode contrariar expectativas, modificar relações e provocar respostas que não controlamos. Por isso, muitas vezes dizemos “não sei o que quero” quando a verdade é outra: sabemos, mas temos medo do que acontecerá se dissermos. A personagem não teme a massa. Teme o que precisa fazer para não continuar aceitando as batatas.
Vale então perguntar: em que parte da sua vida você chama de dúvida aquilo que talvez seja medo da reação do outro?
O vídeo segue por um caminho espiritual. O garçom passa a representar o Universo. Os pratos errados seriam testes para descobrir se a mulher realmente acredita que merece receber a massa.
A partir daí, a mensagem parece ser esta: se ela mantiver o foco, não aceitar menos e acreditar o suficiente, o Universo entregará o que foi pedido.
É aqui que precisamos fazer uma distinção. Um objetivo é algo que desejamos alcançar: uma relação, um trabalho, uma conquista ou, na metáfora, um prato de massa.
O propósito é mais profundo. Diz respeito àquilo que nossa consciência desenvolve ao atravessar as experiências da vida.
Um objetivo pode servir ao propósito, mas não é o propósito.
Receber o que desejamos não prova que crescemos. Não receber também não prova que fracassamos. Podemos conquistar algo e permanecer presos aos mesmos padrões. Podemos encontrar uma porta fechada e, diante dela, desenvolver uma consciência que antes não possuíamos.
Por isso, não penso no Universo como um garçom que anota desejos e verifica se acreditamos o suficiente para merecê-los.
Acredito que o Universo nos oferece condições para atingirmos nosso objetivo primordial: o desenvolvimento daquilo que viemos trabalhar em nós.
Condições, porém, não são garantias.
Não escolhemos tudo o que encontramos. Recebemos um corpo, um ambiente, capacidades, limitações e relações. Podemos também carregar, em nossa essência, as marcas produzidas por experiências anteriores.
Tudo isso participa da vida que teremos. Mas nada disso escolhe sozinho aquilo que faremos. É aí que entra o livre-arbítrio.
Podemos perguntar ou permanecer em silêncio. Podemos insistir ou mudar de direção. Podemos aceitar algo por clareza ou por medo. Podemos recusar por consciência ou apenas para proteger o orgulho.
O Universo oferece as condições. Nossas escolhas participam do resultado.
Isso não significa que controlamos tudo. Significa que não permanecemos iguais depois de agir. Algo sempre resulta de uma ação ou mesmo de uma inação consciente.
Quando uma experiência termina, alguma coisa irá permanecer como resultante.
Cada escolha fortalece uma maneira de existir. Uma ação pode desenvolver coragem, lucidez e responsabilidade. Outra pode fortalecer a fuga, a dependência ou a recusa de olhar.
Essa é a resultante que fica em nós. O prato recebido é visível. A resultante, quase nunca.
Por isso é tão fácil confundir conquista com evolução e frustração com fracasso. Duas pessoas podem desejar a mesma coisa. Uma recebe, a outra não. Isso não basta para sabermos qual delas cresceu.
A pergunta mais profunda não é apenas “eu consegui?”. É também: “O que minha escolha está formando em mim?”
Isso não significa desistir dos objetivos ou fingir que o resultado exterior não importa. Significa reconhecer que ele não é toda a experiência.
Pergunte novamente
Volte ao seu cardápio.
Quem escreveu as opções que você acredita possuir?
Quais vontades você aprendeu a chamar de egoísmo?
Em quais relações sua bondade ainda depende do silêncio?
Onde você aceita batatas por uma escolha consciente, e onde aceita porque nunca imaginou que poderia perguntar? Talvez você não tenha escolhido o primeiro cardápio. Talvez tenha passado anos acreditando que ele continha a vida inteira.
Mas a pergunta pode nascer agora.
Você não precisa saber imediatamente qual prato deseja. Pode começar olhando além do papel e perguntando com honestidade:
“Há mesmo apenas batatas, ou foi apenas isso que eu aprendi a pedir?” A luz começa nessa pergunta.
Não porque o Universo fique obrigado a entregar tudo o que você deseja, mas porque você deixa de tratar como destino aquilo que nunca chegou a examinar.
O cardápio que você recebeu não é a vida. E cada escolha feita depois dessa descoberta participa daquilo que permanecerá em você.
Referências
[1] Perfil de @lerivetti no Instagram — vídeo usado como ponto de partida para esta reflexão