"Você é o que nasceu para ser? Ou virou um limoeiro tentando dar morangos pra agradar quem nunca quis limão?"

A árvore que se afasta da sua essência, vai secar tentando dar frutos que não são os seus.

A árvore que tenta dar frutos que não são os seus, vai secar e morrer, não importando a quem tenha agradado

O que te atrai é o que você nasceu para ser!

Você só será genuinamente feliz se manifestar aquilo que nasceu para ser.

Isso não tem nada a ver com destino. Destino é ponto de chegada. E o que estou falando aqui é sobre caminho. Sobre exercer, durante a vida, aquilo que a sua natureza te deu como ferramenta.

A árvore nasceu para dar frutos, sombra, renovar o ar. Essa é a natureza dela. Ela não escolheu — ela É isso. A água nasceu para abastecer, hidratar, limpar. O urubu, as formigas, os vermes — nasceram para decompor, limpar, impedir que o meio adoeça. Até o verme tem sua natureza. Até ele cumpre uma função insubstituível no todo.

Cada um de nós nasce com uma natureza própria — aptidões inatas que nos permitem exercer uma função no todo de forma fluida, natural, sem esforço de adaptação. Algo que quando você faz, o tempo muda de velocidade. Algo que te preenche sem precisar de aplauso. Algo que te atrai (guarda essa palavra ) sem precisar de empurrão.

Mas no seu caminho, o tempo todo, vai surgir alguém dizendo que o certo é outro. Que você deveria praticar futebol quando o que sempre te atraiu foi xadrez. Que deveria fazer ballet quando o que sempre te atraiu foi montar robô de Lego. Que deveria estudar Direito para herdar o escritório, os clientes e a fama que o pai construiu — e que quer perpetuar usando a vida do filho para isso.

Você já viu isso milhares de vezes. Pais determinando o futuro dos filhos sob o pretexto de "saber o que é melhor para eles". Sem nem cogitar as habilidades naturais da criança. Sem perguntar o que a atrai. Sem observar onde ela brilha sem esforço.

E a criança obedece. Porque é criança. Porque confia. Porque ainda não tem estrutura para dizer "isso não sou eu". E vai se moldando. Vai se reescrevendo. Vai gastando energia para ser o que os outros querem — e se afastando, dia após dia, daquilo que nasceu para ser.


Dis-tração

Presta atenção nessa palavra. Dis-tração. Aquilo que te afasta do teu ponto de atração.

O que te atrai é o que naturalmente te é prazeroso, te deixa feliz, te satisfaz independente da opinião do resto do mundo. É o que te puxa sem precisar empurrar. É onde mora a sua natureza.

E a dis-tração é exatamente o oposto: é o que te afasta desse ponto. É o que te leva pra longe daquela área onde reside a sua felicidade genuína.

Quando alguém determina que você seja de outra forma que não a sua própria natureza, seja um pai que escolhe sua profissão, um parceiro que exige um direcionamento, uma sociedade que cobra determinada postura — está criando uma dis-tração no seu caminho. Te tirando do ponto de atração. Te levando mais longe de você.

E o mais perverso: muitas vezes a dis-tração vem disfarçada de conselho, de cuidado. de "eu só quero o seu bem". A árvore no bosque que quer aconselhar a outra, não está necessariamente sendo maldosa quando diz "estica suas raízes pra depois daquelas pedras, lá a água é mais abundante". Ela está projetando, colocando no outro aquilo que acredita ser verdade universal porque funcionou pra ela. Ou porque ela acredita que funcionou.

E então começa o ciclo: a árvore fazendo um esforço enorme para se moldar, esticar suas raízes depois das pedras. Gastando energia. Gastando tempo. Gastando vida. E quando finalmente consegue — se consegue — já não tem mais força pra dar frutos. Ou os frutos que antes eram doces agora saem azedos, murchos, sem vida.

E aquela árvore que deu conselho para mudar as raízes de lugar, ainda diz: "tá vendo, eu te falei e você conseguiu."

Mas conseguiu o quê? Chegar onde o outro queria. Não onde a sua natureza pedia.

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A Genialidade que  ninguém aplaude

Você consegue imaginar o Ronaldinho Gaúcho como advogado tributarista? Eu não estou dizendo que ele não seria capaz — somos constituídos de elementos que nos permitem aprender e replicar o que aprendemos. O que estou dizendo é que em campo, qualquer um reconhece O Mago. É evidente que ele é feliz fazendo aquilo. Pergunte a ele se sentiria sequer uma parcela daquela felicidade no cotidiano de um escritório jurídico.

E não estou dizendo que na vida só fazemos o que nos alegra. O mesmo Ronaldinho ficava fechado em hotéis na concentração, fazendo dieta, suportando treinos exaustivos. Ele não amava isso. Mas fazia — justamente para que pudesse, em campo, manifestar toda a sua genialidade e ser feliz fazendo o que a natureza criou ele para fazer.

Agora, aqui mora um ponto que a sociedade não quer enxergar: por que a genialidade só seria válida na jogada bonita do campo de futebol?

A genialidade está num móvel feito com maestria por um marceneiro que ama madeira. Está num jardim que só um jardineiro apaixonado consegue criar. Está numa parede pintada com um tom de cor que só alguém que ama o que faz consegue acertar. Está numa aula dada por um professor que nasceu pra ensinar.

Cumpra com a sua natureza e será genial sendo o que quer que seja.

Ou escolha viver de aplausos. Faça tudo que o outro queria. Receba o reconhecimento. Ouça o "parabéns, você conseguiu". E depois, quando o barulho dos aplausos passar, fique com o vazio. O vazio de ter feito o que os outros queriam — menos aquilo que nasceu para ser. Porque no fundo você sente. Você sabe. Mesmo que a obra que realizou tenha sido muito bem feita, ela não é sua. Não é da sua natureza. E o vazio não se preenche com aplauso.


E se você esqueceu?

Talvez você esteja lendo isso e pensando: "mas eu nem sei mais qual é a minha natureza."

Eu entendo. Porque depois de tanta dis-tração — pais que desejaram uma profissão pra você, que podaram suas habilidades inatas, parceiros que exigiram um determinado direcionamento, projetos que te levaram longe do seu Eu, sociedade cobrando postura — talvez você já nem se lembre.

Mas o termo é esse: não se lembra. Não é que não sabe. É que esqueceu.

Porque por mais que você diga que não conhece sua verdadeira natureza — você conhece sim. Ela está lá. Sempre esteve. Talvez tenha sido soterrada logo cedo, quando você cantava no chuveiro, feliz, com energia verdadeira - não apenas uma distração - e a família caçoava de você. Aquilo te envergonhou. E te fez esquecer, aos poucos, que aquilo era parte da sua essência. Ou quando você escrevia um poema, com sentimento genuíno e seu pai dizia que aquilo não era coisa para homem, que você tinha é que ir jogar futebol, que aquilo não era para você. Ou quando você sonhava com algo e alguém dizia que aquilo não estava ao alcance porque socialmente não estava à altura, aquele tipo de comentário infeliz - baixa tua bola, menos.

Mas esqueceu não é perdeu. Se está trabalhoso lembrar, faça um exercício. Force a memória. Lembre quando foi feliz — genuinamente feliz, pleno, realizado — fazendo algo. Alguma coisa que te deu orgulho de SER, não de conquistar. Momentos que você viveu e desejava que não terminassem. Que o tempo parava. Que você não precisava de ninguém validando. Que você sentia que estava cumprindo sem esforço, sem adaptação, sem fingir.

Aí está o caminho. A ponta da corda. Puxe, e vai reencontrar a sua natureza.

Eu me distraí por muito tempo. Vivia querendo provar que era capaz de chegar nesse ou naquele ponto. Provar pros meus irmãos, pra minha esposa, pros meus filhos, pra sociedade, pro mundo. E pra isso fui criando caminhos, atividades, trabalhos, conexões — que me afastaram da minha natureza.

A vida foi generosa. Algumas vezes me trouxe oportunidades de exercer o que sou. Aproveitei. E fui realmente feliz nesses momentos. Mas eu tinha determinado pra mim mesmo que chegaria num determinado ponto, um resultado que queria mostrar — e então a dis-tração me afastava de novo.

Foi só quando percebi isso, quando parei de perseguir o ponto de chegada e decidi existir segundo a minha natureza, que a leveza voltou. E com ela, a felicidade. Não a felicidade de conquista. A felicidade de função. De estar no lugar certo fazendo o que nasci pra fazer.

Não deixei de fazer o que preciso fazer pra viver. Mas não deixei mais de fazer e de ser aquilo em que minha natureza brilha.

E para quem quer saber qual é a minha natureza, minha vocação — eu vou falar. Mas num próximo texto. Porque tem muita coisa bonita pra contar e não caberia no final de uma reflexão. Até porque... ela está na reflexão toda.

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