Minha história e a Vocação que eu reconheci

Duas pancadas, um domingo de joelhos e o General que venceu ao se tornar Soldado.

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Luz e força, pede e receberás!


Tem muito texto aqui no blog que eu escrevi sem contar de onde ele veio. Este eu devia a vocês.


Antes de contar as pancadas que levei, preciso dizer como estava a minha empresa a Estagilize no ano de 2018. 

Fundada por mim em 2002, esse tempo todo foi minha fonte de sustento, e lá sempre foi um lugar onde eu me sentia grande por tudo o que construí e sei.


Entre 2018 e 2023 eu tocava junto meu trabalho na Estagilize com um outro projeto onde formava e supervisionava grupos de empresários em atividades de relacionamento e troca de negócios. Neste projeto eu não era remunerado, mas trabalhava na expectativa de ser reconhecido como um possível sócio nesta rede. O objetivo eu consegui, mas assim que cheguei onde quis em 2023, decidi não ficar (e essa parte eu falo já já).


Mas na pandemia em 2020 eu e Elaine, minha esposa, sofremos por ter todos os ovos na mesma cesta, ambos trabalhávamos juntos na Estagilize e nossa renda só vinha de lá. Em 2022 saí para empreender em mais um projeto. Precisávamos criar outra fonte de renda. Mas também saí porque já não queria mais estar ali. Já não era produtivo na Estagilize e passei a tocar paralelamente dois projetos fora, o que iniciei em 2018 e este novo em 2022, ambos de outras pessoas em quem confiei muito.


E em 2023 atuando fora e vendo a Elaine ter que tocar sozinha a Estagilize veio a primeira pancada.

Neste projeto que entrei em 2018, cheguei apenas como cliente mas rapidamente fui convidado a capitanear a expansão do negócio aqui na região, sem remuneração, e eu ganharia com a exposição da minha imagem. Aceitei e fiz resultado rápido. Eu era o General, o primeiro a entrar na batalha, o último a sair, o que prometia levar a tropa às conquistas. E as levei com muita competência. Coletivamente todos se beneficiavam. Compravam as batalhas comigo mas também colhiam ótimos resultados. Eu me sentia grande, respeitado, e até temido às vezes por aqueles que tentavam andar mais pelo individual do que pelo coletivo. Com esses eu chegava a sentir orgulho de endurecer, afinal o coletivo apostava em mim, e recebia de mim toda a reciprocidade e proteção.

 Ali aceitei o escudo, a espada, o crachá e os louros. O que eu não via é que eu era só mais uma engrenagem, e não o Maquinista. 

Ainda assim com cinco anos de dedicação cheguei onde queria, recebi o convite para abrir uma nova região como sócio. Aceitei e comecei o que seria o início da colheita dos anos de dedicação e entrega que fiz ao projeto de outra pessoa.

Mas em algum momento meus valores começaram ser aviltados, e a cada sinal eu explicava para mim mesmo que era o fluxo normal de uma fase do projeto. Até que o corpo cobrou. Uma taquicardia me tirou de campo por uns quinze ou vinte dias. Foi a primeira vez em cinco anos que alguém tirou o meu crachá, e quem tirou foi o corpo, porque eu mesmo não tirava. Quando voltei, o pano de fundo tinha mudado, e a decepção com quem eu seguia e confiava tornou tudo insustentável. Foi só ali que eu vi que o Maquinista era como o Idiota que se Sobrepõe que eu falo no texto “O Silêncio dos Idiotas” (clique aqui e leia)

 Saí e deixei para trás o sonho e o trabalho imenso de 5 anos.


Minhas convicções sempre foram maiores que as minhas dores, mas a dor não foi embora fácil. Ficaram o orgulho pela decisão tomada de sair, o luto pelo tempo e pelas expectativas que eu tinha investido, e a raiva também, porque não sou nenhum ser de pura luz.

Me mexi rápido, como sempre. Escolhi não contar os motivos da minha saída para não abrir uma crise moral num grupo que eu mesmo trabalhei duro para formar. Foi uma decisão minha, e teve custo: a saída ficou obscura para muita gente, e minhas novas tentativas de outros negócios não ressoaram com aquele público que naturalmente seria meu público consumidor. 


Em março de 2024 veio a segunda pancada. E foi no outro projeto, com prazo definido e uma renda que me segurava. A pessoa que tinha poder para isso, resolveu sozinha, encerrar. Não levou em conta nem o combinado nem o meu lado. Fiquei na mão. Dessa vez não houve decepção moral, só o interesse de quem podia. Era a dependência que eu já escrevi, vivida na pele (leia aqui: Se você depende, você DEPENDE)

 

Nesse período, mesmo com as decepções, consegui gerar receitas importantes para nós, e ainda que sem a estrutura dos projetos que eu estava e que grande parte eu criei, resolvi levantar a cabeça e fazer sozinho o que antes fazia para os outros.

Eu não temia não conseguir, por duas razões. A primeira porque eu faria para mim o que já estava fazendo para os outros e a segunda porque eu sempre consegui sucesso em todas as empreitadas que entrei. Claro que com muito esforço, resiliência, tombos e dificuldades, mas sempre consegui. 


Sempre consegui achar caminhos, abrir portas. Mas os meses foram passando e o que sempre acontecia não aconteceu. . Nunca me importei em desbravar a selva que fosse, Mas desta vez nada estava dando certo. As portas não se abriam, os caminhos já tinham se esgotado e eu já não enxergava outros. Contas acumulando, dívidas de negócios mal feitos no passado chegando…


Veio o marco dos 50 anos, e a expectativa que eu tinha para ele era outra. E em setembro de 2024, pela primeira vez na vida, eu não estava dando conta. 


Esse era o meu outro crachá, e eu nem sabia que era um: “eu sempre dou conta”. Sempre achei o interruptor quando tudo estava escuro. Quando ele falhou, o que doeu não foi só o dinheiro. Foi perder quem eu achava que era. 


O Domingo 

Naquele mesmo mês, a avó da Elaine faleceu e fui à missa de sétimo dia. Eu rejeitava a Igreja. Quando ia, ia de corpo presente, cumprindo formalidade. Mas naquele dia a homilia falava da disponibilidade de Deus para quem pede, e o Padre disse que, se nós, pais, pequenos e falhos, damos pão ao filho que pede, ou algo melhor, imagine o Pai. Aquilo me acertou em cheio. Eu sempre achei que não devia pedir nada, só agir bem e merecer. Passei a semana com aquela frase na cabeça, e foi uma semana ainda mais dura. 


No domingo seguinte eu quis voltar, a Elaine até estranhou, mas ela sempre está ao meu lado em tudo. Cheguei diminuído sob a carga que carregava, e ali caiu o orgulho, a falsa ideia de que eu dava conta de tudo. Eu nunca havia me ajoelhado até aquele momento, para mim isso era um sinal de fraqueza. Eu não sabia que ajoelhar com humildade e pedir era na verdade permitir que Deus me desse a força que me faltava.

Mas naquele dia, contrariei o orgulho, me ajoelhei e disse: “Pai, não dei conta, não sei mais por onde fazer, preciso da Sua ajuda, estou nas Suas mãos.” E pedi duas coisas: luz para me guiar o caminho e força para caminhar. O resto era comigo. 


O General existiu, me levou longe, e eu tenho orgulho do que ele construiu. Mas ele nunca soube pedir. Se pedisse, pediria com endereço: aquela porta, aquele inimigo, o triunfo. Quem se ajoelhou naquele domingo não tinha porta na mão. Pediu luz sem apontar o caminho, e força para andar, não para vencer. 

Eu temia sentir vergonha, logo eu, pai de família, assumindo que tinha perdido o rumo. Senti o contrário. A vergonha estava no que eu escondia, e o pedido me pôs de pé, sem orgulho, amparado. 


Para mim, aquele domingo não foi acaso. Acredito que o meu Eu Maior vai me apresentando oportunidades de encontrar a minha Vocação, e a homilia chegou num momento em que eu podia ouvi-la. Parte do que me levou até ali veio de decisões de outras pessoas, e não atribuo isso ao meu Eu Maior. Ele mostra os caminhos. O que eu encontro neles, e o que faço com isso, é escolha minha.


Luz e força 

Nenhum problema foi resolvido por força divina. Mas os caminhos voltaram a aparecer, as portas voltaram a ser encontradas, e as pernas sustentaram a caminhada. Pedi luz e força e recebi. Mas o caminho nunca foi fácil, mesmo agora iluminado e com força nas pernas. Na maioria das vezes, a luz não mostra só as portas. Mostra também feras e obstáculos que eu nem sabia que estavam ali. E a força para caminhar nunca significou que as montanhas seriam fáceis, só a certeza de que ela viria mesmo quando a perna falhasse. 


Passei a estudar a Bíblia sem pré-conceitos, sem os óculos dos outros, e encontrei ali a palavra Dele, sem intermediários. Foi assim que conheci os salmos, e três deles me fizeram muito sentido: o 91, o 23 e o 7, nessa ordem. Passei a ouvi-los todos os dias, sem falta, logo depois de fazer o café, no silêncio da manhã. Continuo até hoje. 

Os salmos 91 e 23 me fortaleceram e me blindaram para enfrentar com confiança tudo o que viria pela frente. 

O 7 fala de justiça. Eu tinha compromissos antigos para honrar e estava ajustando todos, mas queria pagar de forma justa, e não da forma punitiva e desproporcional com que essas coisas costumam funcionar. Nunca pedi justiça a meu favor. Pedi que ela se cumprisse na devida medida. E sim, naqueles dias, como humano ferido, eu via os algozes cavando a própria cova. Quanto ao perdão, não veio como dó, nem como uma luz depois de uma oração ou de uma missa. Veio quando a lembrança deles deixou de pesar. Simplesmente saiu de mim. Eu já não olhava para a cova deles, só para o meu caminho adiante. Hoje desejo o bem a eles, como desejo a todos, sempre. 


Não podem imaginar como esses três salmos me alimentaram nessa fase. Em meio a tanta flecha e a tanto terreno acidentado, eu me sentia amparado, no momento em que mais precisei e com a certeza de que não estava sozinho. Antes eu era o General e comandava. Agora eu era soldado, e quem estava no comando era Deus. Não deixei de escolher: obedecer também era decisão minha, a cada passo. Mas deixei de achar que o mapa era meu. 


Aprendendo a andar de novo 

O ano de 2025 foi quase todo para aprender a andar outra vez. Mais discreto, e muitas vezes apanhando sem revidar, porque o General que ficou para trás gastava toda a energia nessas batalhas. 


Nos primeiros dias de 2026 chegou uma lembrança de 17 anos atrás, como se estivesse esperando a hora certa. Em 2009 eu estava em frente à secretaria da Faculdade de Psicologia, prestes a assinar a matrícula, quando recebi o telefonema da coordenação de Administração da mesma faculdade me convidando para dar aulas. Saí da fila, entrei na porta da coordenação e saí de lá professor. Era um sonho antigo. Foi mágico, e a Psicologia ficou para trás. 

No momento em que a lembrança veio, decidi me matricular. Dez dias depois, voltando das férias, estava lá: matrícula feita, frio na barriga, num momento financeiro ainda difícil e com todo o apoio da Elaine.

 

Voltei a escrever, algo que sempre fiz e nunca divulguei. Pensava, escrevia, dispensava. Durante anos, ninguém leu, e eu nem precisava que lessem. Quando comecei a compartilhar foi sem intenção nenhuma, só porque o que me serviu talvez servisse a alguém. As pessoas leram, se identificaram, algumas agradeceram por uma visão diferente. E um aviso que faço questão de dar: o que escrevo aqui não é Psicologia. Estou no primeiro ano do curso. É experiência vivida, análise de fatos e muito tempo para escrever e revisar. 

Estudar, pesquisar, escrever e publicar me devolveu algo que eu não esperava. Eu ainda não sabia, mas já estava vivendo a minha Vocação, e senti a energia, a possibilidade e a vontade de voltar para a gestão da Estagilize. Isso também me fez enxergar que a Elaine estava cansada, e que agora ela podia percorrer o que eu vinha percorrendo, encontrar realização em algo, sem pressão. Decidimos assim. 


O que eu já fazia desde sempre 

Foi nessa época que ouvi o Filósofo Clóvis de Barros falar: "procure na sua vida os momentos em que você foi realmente feliz, energizado, potente, momentos em que não queria que acabassem. Ali você está de frente com aquilo que nasceu para ser."

É a isso que eu chamo de Vocação. 

Não é fazer só o que se gosta. O Ronaldo Fenômeno não gostava de correr no treino, nem de fisioterapia, mas passava por tudo isso com mais leveza, porque era no campo que a potência dele fluía. E também não é o fator de ser bom no que se faz, porque com empenho dá para ser competente em muita coisa. É o que flui naturalmente e te deixa inteiro apesar do peso. Eu não consigo imaginar o Ronaldo num tribunal, como advogado, defendendo alguém. Acho que você me entende. 


Olhei para trás. Criança, eu via programa na TV e ia explicar para a minha mãe como as coisas aconteciam. Na escola, os melhores dias eram os de seminário. E nas feiras de Ciências eu fazia projetos complexos e transformava a apresentação em algo leve. 

Nas empresas, eu dava tudo por mais tempo para explicar o que tinha decifrado. Como empresário, fiz isso comercial, administrativa e juridicamente. 

Como professor na faculdade de administração, a exigência alta que eu tinha com os alunos convivia com o cuidado de deixar o caminho deles mais leve. 

Em tudo, a mesma coisa: pegar o que está denso, encoberto, e devolver digerível, na medida de quem recebe. E hoje, cada vez mais, devolver em forma de provocação, uma pergunta que, respondida com sinceridade pela própria pessoa, descortina muita coisa.


Quem sobrou 

Volto à pergunta de outro texto: retirando o crachá, quem sobra? (leia aqui) 


Sobrou o menino que explicava o programa da TV para a mãe. E isso não é um crachá novo, porque a Vocação não mora no crachá, mora na conduta. A prova está no que contei lá atrás: eu fazia isso sem plateia, sem cargo, sem ninguém para aplaudir, durante anos, em papéis que eu jogava fora. O General precisava da tropa. Isso, não. 

Eu não descobri nada. Apenas reconheci o que sempre esteve ali, e levei três anos e meio, duas pancadas e um domingo de joelhos para ver. 

Mas reconhecer não é chegar. Para mim, isso é o começo do caminho, não o ponto de chegada. Agora que sei o que flui em mim, começa a parte que não acaba: viver isso com coerência todos os dias, errando e ajustando. 


Hoje não sou remunerado pela minha Vocação. Gerir a Estagilize não é o exercício dela, e eu sei disso. Viver só da Vocação será maravilhoso quando acontecer. Mas o simples fato de estar vivendo a Vocação, mesmo sem ser pago por ela, me deu a energia que eu precisava para buscar o meu sustento onde antes eu achava que não tinha mais nada para dar. 

E confesso que está muito prazeroso, um prazer diferente, maduro, que me permite conciliar o meu tempo com o exercício da Vocação que reconheci em mim. A diferença é simples: hoje eu faço o que a Estagilize precisa, e não o que eu quero que ela precise de mim. 


Me sinto muito bem, apesar das dificuldades, mas bem não é pronto. O destino, como já escrevi, não é um lugar, é um estado de ser, cada vez mais consciente. 


Hoje tenho um teste simples. Na época do General, a plenitude vinha com peso e atrito, e eu passava os dias explicando para mim mesmo o por que aquilo era normal. A plenitude de agora, a que sinto quando escrevo, estudo e explico, é leve e não traz atrito nenhum, nem comigo nem com o que me cerca.


E te devolvo a pergunta que me trouxe até aqui, com uma ressalva que aprendi do jeito difícil: o General também foi feliz, potente, e não queria que acabasse. Então tire a plateia. Tire o cargo, o crachá e quem aplaudia. Em que momento da sua vida você foi feliz e potente mesmo assim? O que você estava fazendo? Quando chegar a esta resposta, muito provavelmente estará frente a frente com a sua Vocação.