Sabe quando você olha para aquela pessoa que se anulou em função de um casamento, de um emprego, de uma amizade, ou mesmo de uma mãe dominadora, de um chefe narcisista?
Essa pessoa deixou seu Eu para trás, varreu sua existência para baixo do tapete. Ela precisou fazer isso para conseguir dizer sim quando queria dizer não, para dar conta de realizar coisas que ela mesma não acreditava ou até recusava intimamente.
Essa cena é muito mais comum do que se imagina. Você mesmo, que está lendo agora, provavelmente já passou por isso em algum momento. Mas será possível viver neste mundo sem precisar agir assim? Somos tão independentes a ponto de podermos fazer sempre tudo como queremos ou acreditamos?
Não vou tirar conclusões por você, vou falar por mim. Eu não consigo conviver num mundo de pessoas tão diferentes, em esferas tão diferentes, fazendo tudo do jeito que eu quero ou inteiramente de acordo com as minhas crenças. Convivemos em sociedade, e isso frequentemente pede um ajustamento entre o que acreditamos, o que queremos e o que o convívio exige.
Então não há saída? Estaremos sempre nos anulando em função do outro, já que não vivemos isolados em cavernas?
A resposta está no equilíbrio, no quanto você abre mão daquilo que crê em troca de manter um ambiente mais harmônico, de não perder um emprego que gosta e que o sustenta, de não perder um relacionamento que lhe é valioso.
E aqui abro um parêntese importante: não estou falando dos seus valores. Os valores precisam ser inegociáveis. A Honestidade, por exemplo, não admite meio-termo; não existe alguém meio honesto. Estou falando de virtudes, como a Sinceridade, que se pratica dentro de um espectro: medimos o quanto o outro consegue receber, sem que isso deixe de ser sinceridade. Caso contrário corremos o risco de cometer o famoso sincericídio, dizendo coisas que as pessoas podem se sentir machucadas ou ofendidas.
É aqui que entram as máscaras que usamos e os personagens que criamos para conviver, sobreviver, não machucar, atender e nos relacionar com os outros.
Até aqui, a máscara é apenas isso: uma ferramenta. O risco começa quando deixamos de tirá-la, quando passamos a viver como o personagem, em vez de apenas usá-lo.
Ser você mesmo não exige esforço de adaptação: você simplesmente é. Sustentar um personagem, ao contrário, exige a criação constante de artifícios e ferramentas. Porque se você não é ele, precisa cuidar de tudo o que é necessário para que ele pareça real. E o custo aumenta, porque sustentar esse personagem exige também sustentar o ambiente dele, os resultados dele, os hábitos, os valores, as virtudes que ele projeta, o cuidado em esconder os pontos fracos, enfim, sustentar uma segunda vida inteira. Sentiu o peso disso?
E piora mais um passo: por não ser natural, essa segunda vida exige controle. Você precisa controlar tudo — as próprias ações, as próprias reações — porque, sem esse controle, o personagem não se sustenta.
Viver para atender às expectativas alheias é mergulhar nesse paradoxo: para entregar o que o outro deseja, você abandona sua essência e assume um personagem que, por não ser natural, exige controle absoluto. Você passa a policiar a si mesmo, o ambiente e, inevitavelmente, a outra pessoa da relação, transformando a tentativa de agradar numa armadilha de dominação.
Eis o paradoxo: ao fazer de tudo para caber no molde do outro, você adoece por deixar de ser quem é, enquanto o outro é, na prática, manipulado por uma versão artificial sua, que precisa controlar todas as variáveis para "dar certo", inclusive controlando o próprio outro. No fim, tudo vira um teatro em que ninguém sai ganhando de fato.
Manter controle para que a sua máscara não caia, te pede controlar quem está do outro lado, o que ele vê, sente, e até onde pode se aproximar. Isso não é destino de quem usa máscaras. É o precipício de quem esquece de tirá-las.