O quanto de Sorte nós precisamos na vida?

Sorte e azar não seriam dois lados de uma mesma moeda?

Imagem sorte texto
Quem conhece o caminho não depende de sorte para chegar

Eu não consigo pensar em sorte. E vou te explicar como eu vejo isso.

Sorte não é algo para acreditar ou não. Sorte é o nome popular que a gente dá ao acaso quando ele nos favorece. Azar é quando nos desfavorece. Ambos são acaso — aquilo que escapa ao nosso controle. A diferença é só a cor da lente com que a gente olha.

Até agora aos 51 anos de idade, o que eu observei é o seguinte: quanto mais domínio você tem das variáveis do terreno onde pisa, menos à mercê do acaso você fica. Não é nada místico, não é astrologia e nem espiritual. Se você conhece o caminho, estuda o mercado, antecipa os cenários, o acaso tem menos espaço para te surpreender. Agora, também não podemos deixar de considerar que não sabemos quase nada da maioria das coisas, e isso por si só já deixa margem para pensarmos o seguinte: o quanto precisamos contar com as ocorrências positivas do acaso, ou com a “sorte” se preferir , para que possamos ver realizado tudo o que desejamos. Seria muita prepotência acreditar que controlamos ou conhecemos a maioria das variáveis da vida!!!

Então dominar o máximo de variáveis deixa cada vez menos espaço para o acaso. Mas essa probabilidade nunca é zero. E sabe por quê? Porque você não vive no mundo sozinho. Outras peças estão se movendo no tabuleiro o tempo todo, e muitas delas você não controla. Você pode fazer tudo certo e ainda assim uma variável que você não previu aparece. Isso não é injustiça. É só a natureza do jogo.

Imagine duas pessoas disputando a mesma oportunidade, a mesma porta. Ambas com o mesmo esforço, a mesma vontade, a mesma preparação. E só uma consegue passar. O que aconteceu? Uma teve mais sorte? Ou simplesmente o acaso se inclinou para um lado? Talvez. Mas o que eu acho mais interessante é pensar assim: cada um colhe o que planta, na sua própria medida, independente do que acontece com o outro. Não porque Deus escolhe favoritos. Mas porque cada movimento que você faz tem consequências que você não consegue ver todas. Você não vive em isolamento. O Uno e o Todo estão conectados.

E aí a gente entra na questão do merecimento. O merecimento não é absoluto, ele é proporcional. Pense em grãos de milho. Se alguém tem 5 grãos e planta os 5, essa pessoa entregou 100% do que tinha. Se outra tem 100 grãos e planta 20, ela entregou apenas 20%. Há uma força na entrega total. Lembra daquela passagem da viúva pobre que doa suas duas únicas moedas? É sobre isso. Não é sobre a quantidade, é sobre a proporção. A entrega total muda algo no jogo.

Mas cuidado com os extremos. Isso não significa agir com fé cega e sair jogando tudo para o alto em nome de um sonho. É preciso temperança. Equilibrar matéria e espírito. Dar tudo por uma crença quando você tem deveres básicos — boletos, família, obrigações — não é fé, é irresponsabilidade. Aristóteles tinha razão quando falava da prudência, daquela sabedoria prática de saber dosar. A virtude está no equilíbrio, na excelência proporcional ao contexto.

E não confunda prudência com medo. A diferença não está no ato, mas na motivação.

Prudência é planejar, destinar, executar com consciência. O que sobra, você investe com 100% de presença. Medo é reter por paralisia. É a fantasia catastrófica do amanhã te impedindo de viver hoje.

E falar de entrega me leva à fé. Fé não é torcer para dar certo. Fé é só soltar. Não tem objeto específico. Se você reza pedindo algo com nome e sobrenome, se você está esperando um resultado exato, isso não é fé, é expectativa. É apego. Fé é quando você faz o que cabe fazer, com toda a presença, e depois solta. O resultado vai ser o que cabe para você, não necessariamente o que o seu ego quer.

Eu passei por algumas grandes crises na minha vida. O chão sumiu. Na época, parecia puro azar. Parecia que o universo tinha me escolhido como vítima. Mas olhando para trás, eu percebo com clareza que foram redirecionamentos precisos do meu Eu Maior. A crise me arrancou de onde eu não deveria mais estar. Doeu muito, mas me colocou no trilho certo. E aí eu entendi: o que chamei de azar era na verdade uma correção de curso que eu precisava.

Porque, no fim das contas, o resultado que importa não é o externo. A quantidade de dinheiro na conta, o sucesso aparente, o reconhecimento — tudo isso serve para corpo, a mente e para o bem estar. Mas é passageiro, é efêmero. O que fica, de verdade, é a emoção registrada no seu Eu pela experiência vivida. O resultado externo evapora se você não o usar como fonte de reflexão. Quando você reflete sobre o que aconteceu, a experiência mesmo que dolorida, vira registro interno. Deixa de ser efêmera. Vira você.

O esforço é o motor disso tudo. É o acionamento da vida. Sem empenho, que é a prova real do nosso livre arbítrio, nada acontece. Sem acionar a engrenagem, não há experiência, só observação passiva. Sem experiência, não há resultado. Sem resultante, não há emoção, não há registro. Você simplesmente não sai do lugar.

E isso explica por que tem gente que vive 60 anos e parece que viveu 10 — e gente que viveu 30 e parece que viveu 100. Não é a quantidade de experiência. É a quantidade de reflexão sobre a experiência.

A vida é um ciclo: querer, agir, experimentar, refletir, registrar, crescer. Sem a etapa da reflexão, a experiência passa por você como vento, sem deixar marca. Viktor Frankl sobreviveu aos horrores dos campos de concentração porque encontrou sentido no sofrimento, refletindo sobre ele. O sentido não cai do céu. Você o forja na bigorna da reflexão.

Então, quando alguém diz que teve sorte, eu entendo. Entendo mesmo. Porque é mais fácil chamar de sorte aquilo que não conseguimos explicar. Mas no fundo, usar a palavra sorte ou azar pode até ser a muleta de quem ainda não entendeu o jogo. É o atalho mental para não ter que olhar para as variáveis que estavam ali, operando, e que a pessoa não viu — ou não quis ver. Não é um defeito de caráter. É só falta de domínio do terreno.

O que eu vejo quando olho para quem "teve sorte" é diferente. Vejo alguém que acionou variáveis que talvez nem soubesse que estava acionando. Que se colocou em movimento, que refletiu sobre o caminho, que ajustou o curso quando precisou. E aí, quando o acaso se inclinou para o seu lado, havia espaço para ele entrar.

Não é que a sorte não exista. É que ela é tão pequena quando você domina o terreno que você quase não espera por ela. E quando você não domina, ela se torna tudo. A diferença está em você. Sempre esteve.

Vem comigo pensar sobre isso. Qual é o terreno que você está deixando sem dominar?

Onde você está esperando por sorte quando poderia estar construindo domínio?

Imagem link canal tentativa2
Clique na imagem, entre no canal e receba uma notificação por semana quando sai a nova reflexão!