Um tempo atrás, escrevi aqui no blog um texto chamado "O Silêncio dos Idiotas" (Clique aqui para ler o texto)
Nele, resgatei o sentido grego original da palavra "idiota": aquele cidadão que vivia fechado em si mesmo, alheio à vida da cidade, cuidando apenas do próprio umbigo. Portanto não tem nada relacionado ao idiota usado como ofensa! E naquele texto, diagnostiquei a idiotice não só no mundo ao redor, mas em mim mesmo. Apontei o dedo para o espelho.
Este texto de hoje é o relato do que acontece depois. É o diário de bordo de quem decidiu sair da idiotice. E a primeira coisa que eu preciso te contar é que o mundo não te recebe com tapete vermelho quando você faz isso. O mundo te acha chato.
Antes, eu era o cara que afirmava. Eu impunha o que acreditava. Era incisivo. Mas era unilateral. Eu não percebia que o idiota não é necessariamente burro. Ele é apenas fechado no próprio ponto de vista. Acreditava que a minha visão de mundo era a régua pela qual as coisas deveriam ser medidas. Eu falava e esperava que o outro apenas absorvesse.
Hoje, a coisa mudou. Eu pergunto primeiro. Questiono aquilo que o outro tem como verdade absoluta. Tento entender se o ponto de vista que ele está defendendo tem lastro, se foi validado pela realidade ou se é só repetição cega.
Passei a usar muito uma frase: "Vou te dar o meu ponto de vista". Parece pouco, mas muda tudo. Tira a pretensão da verdade absoluta da mesa.
A mudança, perceba, não foi no meu posicionamento. Foi no método. Antes, a minha comunicação saía de dentro para fora. Era imposição. Hoje, eu tento entrar antes de sair. É troca.E é aí que a chatice entra em cena. Perguntar incomoda muito mais do que afirmar. Se eu chego e afirmo algo, você pode simplesmente discordar na sua cabeça, virar as costas e seguir a sua vida. Mas se eu te faço uma pergunta bem colocada, eu te obrigo a pensar. E pensar dói.
As pessoas não querem ser questionadas. Elas querem ser confirmadas. Querem que você bata palma para as certezas que elas já carregam. Quando você quebra esse ciclo e pede que elas fundamentem o que estão dizendo, o clima pesa.
Hoje, se vamos discutir valores, eu quero saber qual é a filosofia por trás, não apenas o conceito raso que a pessoa tirou da própria cabeça. Se a conversa é sobre política, eu puxo para o fundo coletivo, e não para as crenças pessoais inflamadas. Nos relacionamentos, a busca passou a ser entender o porquê, não apenas explicar o porquê.
Isso cansa quem está acostumado com respostas prontas. O mundo ao redor pode até te chamar de chato. Mas sabe de uma coisa? Para mim, ser chato não é um peso. É um prêmio. Ser chato é a conquista de quem saiu da idiotice. Eu não sinto que "pago o preço de ser chato". Eu sinto que ganhei o direito de ser "chato". Eu carrego essa chatice como um troféu. É o atestado de que não sou mais um turista na própria alma, como escrevi no texto anterior.
Agora, preciso ser honesto com você e comigo mesmo: esse processo não acabou. Longe disso. Está em construção, com tijolos caindo e cimento sujando a mão. Eu estou disposto a virar o meu ponto de vista para o do outro se enxergar razão. E mesmo que eu não enxergue razão hoje, eu não descarto a possibilidade. Eu me forço a pensar: "Talvez eu não tenha os elementos que o outro tem para enxergar daquela maneira".
Ainda estou aprendendo onde fica a linha fina entre iluminar e insistir. Não tenho essa resposta fechada. Às vezes, o meu Eu Maior me impulsiona a questionar, a buscar a raiz das coisas. O processo de individuação tem me dado força para isso.
Mas eu não sou ingênuo comigo mesmo. Fica uma pergunta que não cala: será que às vezes eu passo da linha? Será que perguntar tanto não vira insistência? Será que eu não estou, sem perceber, conduzindo o outro para onde eu já cheguei, só que de um jeito mais elegante?
Ainda estou calibrando isso. Mas uma coisa eu me cobro: se no meio de uma conversa o outro me mostra algo que eu não vi, eu me permito mudar de posição? A minha resposta tem sido sim. E enquanto for sim, eu sei que estou perguntando para entender — não para vencer.
Estou compartilhando isso, abrindo a minha experiência, não por exposição. Estou compartilhando porque acredito que quem passa por esse processo tem ganhos enormes. O primeiro é na própria individuação — no crescimento mental e pessoal que o processo em si já proporciona. E o segundo é para o mundo: mais uma pessoa trabalhando para que as interações não sejam tão superficiais. Mais uma pessoa gerando valor — para si mesma e para o meio em que está.
No fechamento de "O Silêncio dos Idiotas", eu disse que a verdadeira sabedoria não estava em apontar o idiota no outro, mas em reconhecer as nossas próprias camadas de idiotice.
Hoje, eu complemento: a verdadeira conquista não é apenas ter deixado de ser idiota. É aceitar que o processo nunca acaba. E que ser chamado de chato é, na verdade, o som de quem está vivo, questionando, incomodando e crescendo.
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